24 de janeiro de 2014

O silêncio do respeito

Escrito por Rafael Leite


Há praticamente três meses fiz uma matéria (junto com o Igor Batalha, aqui do blog, e outros dois amigos, Hugo L’abatte e José Victor Fantoni) sobre um projeto do músico mineiro Gabriel Guedes, filho do também músico Beto Guedes, um dos fundadores do Clube da esquina. O projeto consistia em colocar pianos em algumas praças de Belo Horizonte, para exatamente levar um pouco de música para a população. Haviam cinco pianos: um na praça Ernesto Fassini, em Santa Tereza; outro na Avenida Bernardo Monteiro, no Santa Efigênia; um terceiro existia na praça Sete, no centro de Belo Horizonte; um na praça Israel Pinheiro, mais conhecida como praça do Papa, no Mangabeiras; e um último na praça Diogo de Vasconcelos, ou praça da Savassi. Na ocasião entrevistamos Gabriel, que estava bem animado com seu projeto, mesmo que nenhum deles tocava mais como antes.
Como na ocasião não publiquei a reportagem, irei anexá-la nesta publicação, antes de continuar:
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Os cinco pianos de Gabriel Guedes
Projeto do músico mineiro completa quatro meses. Quais foram os resultados?
Igor Batalha
José Victor Fantoni
Hugo L’abatte
Rafael Leite
Em julho deste ano, o músico mineiro Gabriel Guedes, 35 anos, filho do cantor Beto Guedes (do grupo Clube da Esquina), começou a colocar pianos em alguns espaços públicos de Belo Horizonte. Ao todo, cinco pianos foram colocados à disposição da população ao longo destes quatro meses. Mas será que o músico conseguiu levar essa cultura do piano para a vida dos belorizontinos? Veja abaixo o estado e a localização desses cinco pianos que foram disponibilizados para o público e tire suas próprias conclusões.
Praça Ernesto Fassini (anteriormente na Praça Duque de Caxias, ambas no bairro Santa Tereza, região Leste)
Foto: Hugo L'abatte
Um dos primeiros a ser colocado. Estava na Praça Duque de Caxias e foi movido para a Praça Ernesto Fassini pelo próprio Gabriel Guedes após, segundo ele, o morador responsável por trancar o piano às 22h e destrancá-lo 8h nunca mais ter aparecido para liberar o piano para o uso do público. O próprio Gabriel teve de ir ao piano quebrar o cadeado. “Preferi colocar o piano na Praça Ernesto Fassini para que ele [o morador] não fizesse isso de novo”, disse.
Foi o instrumento que se encontrou em bom estado por mais tempo. Possuía uma cadeira para tocar e um cartaz da associação dos moradores e comerciantes do bairro pedindo a preservação do piano. Segundo o músico, foi o piano que durou por mais tempo pelos moradores terem comprado a ideia e tomado mais cuidado com ele. O instrumento era muito usado de sexta a domingo devido a grande movimentação na praça, onde se encontra o Bar do Orlando e a pizzaria Parada do Cardoso, famosos “points” do Santa Tereza. O piano está sem o banco e algumas de suas teclas estão grudadas, mas algumas ainda emitem som. Nenhuma madeira foi furtada, mas aparentemente já está bastante degradada. Sua lona, que era usada para protegê-lo contra o sol e a chuva, foi furtada.
Avenida Bernardo Monteiro (bairro Santa Efigênia, região Leste)
Foto: Igor Batalha
Foi o primeiro piano a ser colocado. Encontra-se com assento quebrado e nenhuma tecla funcionando, pois teve todos os martelos (peça responsável por bater na corda do piano após a tecla ser acionada, o que produz um som) quebrados. Gabriel disse que retirou a máquina para poder consertar, porém não teve tempo nem dinheiro para realizar a manutenção.
Rodrigo Haddad, 29, gerente da loja Cristina Uniformes, que fica em frente ao local do piano, disse que sempre aparecia alguém para tocar. Rodrigo declarou que “o piano trouxe mais harmonia ao local. Seria bom que esse piano fosse substituído por outro que estivesse funcionando, precisamos disso”. Renata Campos, 30, gerente da loja Complemento do Corpo, vizinha da de Haddad, disse que o piano foi destruído pelos andarilhos que ali habitam. “Senhoras que moram aqui no prédio, crianças, casais de namorados e até trabalhadores de uma obra no estacionamento aqui perto tocavam o piano e agora eles [os andarilhos] o destruíram”. O piano funcionou de Julho até o final de Agosto. Seu banco também está destruído e, além dos martelos, faltam alguns pedaços de madeira. Também se encontra sem a lona.
Praça Sete (centro da capital)
Piano da Praça Sete antes de ser
completamente destruído
Foto: Igor Batalha
Durou pouquíssimo tempo. Gabriel Guedes afirma que pessoas retiravam a madeira para vendê-la e comprar drogas. Ainda segundo o músico, alguns dos moradores de rua que dormem na praça colocaram fogo no piano após outro morador ter pegado um pedaço de pau para ficar passando pelas cordas expostas no piano. “Para não terem mais esse problema, eles atearam fogo no piano”.
Guedes não soube dizer como, mas o instrumento foi retirado do local. Ele suspeita que os mesmos moradores de rua tenham tirado toda a madeira do piano até não sobrar mais nada.
Praça do Papa (bairro Mangabeiras, região Centro-Sul)
Foto: Igor Batalha
Não possui assento para as pessoas tocarem e já não funciona. O vendedor ambulante Frederico Simões, 19, acredita que a deterioração do instrumento aconteceu mais por consequências da exposição dele ao tempo. “Acho que também houveram ações de vândalos, mas eu particularmente nunca vi”, disse. Seu pai, Rubens Lancuna, mais conhecido como Jamaica, que também é vendedor ambulante, disse já ter visto algumas pessoas vandalizando o piano. “Quando eu via, tentava afastá-los. Era minha contribuição para a conservação do instrumento”, declarou.
O piano está pichado e também está com as teclas grudadas. Algumas poucas ainda funcionam. Nunca possuiu banco e sua lona também já não se encontra mais junto a ele.
Praça da Savassi (também na região Centro-Sul)
Foto: Rafael Leite
Gabriel Guedes critica o fato de que este piano durou menos do que o piano da Praça Sete, mesmo estando na região Centro-Sul da capital, onde há pessoas de classes mais altas. Devanir Rodrigues, 38, gerente da loja Café Três Corações, disse que a depredação começou em um evento ocorrido na Savassi poucos dias após a colocação do instrumento. “As pessoas subiam no poste [onde o piano está acorrentado] e desciam até cair no piano, como se fosse pole dance. Pessoas de classe média, não moradores de rua”, afirmou Devanir.
O piano encontra-se com todas as teclas grudadas, mas com todas as madeiras, mesmo que bastante degradadas. Também não possui banco e sua lona de proteção à chuva foi furtada.
O PROJETO DE GABRIEL GUEDES
Segundo o músico, a ideia surgiu enquanto ele assistia à um filme sobre a vida de Van Gogh. “Em uma cena, apareceram algumas pessoas dançando debaixo de uma árvore, junto de um piano e um violino, e pensei em fazer isso aqui também, colocar um piano permanentemente numa praça e deixar o povo tocar quando quisesse”. Ele já possuía dois pianos usados, que foram os primeiros a serem designados para as praças.
O OBJETIVO DE GUEDES
Primeiramente, ele usou o piano para manifestar contra a política do país. Mas também queria dar acesso a quem nunca teve um piano. Visto como instrumento de elite, Guedes queria populariza-lo. Além disso, quis “promover encontros, como chamar a galera pra tocar a noite, tomar um vinho, fazer um luau, etc.”.
DIFICULTADES
A Prefeitura de Belo Horizonte quis multar o músico em R$150,00 por dia se ele não retirasse os pianos da praça. Graças a manifestações populares, acabaram liberando a permanência dos instrumentos e assim aconteceu. Outra dificuldade foi a financeira. Como não possui apoiadores para o projeto em Belo Horizonte, ele mesmo tinha que bancar a compra dos instrumentos. Chegou até a abrir uma conta para que as pessoas colaborassem com o projeto. “Consegui cerca de R$850,00, mas ainda tenho uma dívida de R$900,00 da compra de um dos pianos”, contou.
Além disso, a conservação dos pianos era algo difícil de fazer. Ele tentava conversar com a comunidade para que esta ajudasse a tomar conta dos instrumentos. Não só para evitar vandalismo como para cobrir os pianos com uma lona que ele disponibilizava para cada um deles. Mas as lonas sempre eram furtadas, e na alta madrugada os pianos acabavam ficando à mercê dos vândalos.
RESULTADO DO PROJETO
Guedes afirma que o projeto superou as suas expectativas, devido, principalmente, a sua repercussão. “Apareceu mídia nacional pra fazer matéria e tiveram algumas histórias bastante interessantes com esses pianos como gari tocando Beethoven, deficiente visual tocando, pessoal fazendo luau em volta do piano e até fizemos uns shows lá na Praça Duque de Caxias”. Segundo ele, o projeto atingiu seu objetivo e continuaria atingindo, caso os pianos estivessem sempre a funcionar.
O FUTURO DO PROJETO
Outros três pianos já foram encomendados pelo músico para prosseguir o projeto: um a ser colocado no Museu do Ipiranga, na cidade de São Paulo; outro que deverá ser disponibilizado na Praça São Salvador, no Rio de Janeiro; e um terceiro que deverá ser implantado no bairro Padre Eustáquio, na capital mineira.
Gabriel ainda afirma ter conseguido um local que vende dez pianos por um preço menor, pretendendo compra-los e coloca-los nas praças. “O resultado do projeto superou minhas expectativas, ano que vem quero fazer mais.”. Ele ainda disse que pretende fazer algo para proteger melhor o piano da chuva e tentar trancá-los a noite para que os vizinhos não sejam incomodados por pianistas noturnos.

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Infelizmente, hoje a noite tive uma surpresa. Primeiro, eu não acreditei. Depois, quis colocar a culpa na chuva. Por último, vi que, realmente, falta respeito nesse mundo.
Foto: Elio Domingos Neto
O piano, na época o mais conservado (e eu, diga-se de passagem, achava sensacional o tanto que os moradores de Santa Tereza abraçaram a ideia) foi totalmente destruído. Um vândalo? Um morador de saco cheio? Já não sei. Mas é uma tremenda falta de respeito. Respeito com o Gabriel, que quis levar mais música, mais cultura para a população belo-horizontina, principalmente para a do bairro Santa Tereza. Bairro boêmio e tradicional de Belo Horizonte, que deu origem ao próprio Clube da Esquina. A esquina que dá nome ao grupo está no bairro, inclusive. Rua Divinópolis com Rua Paraisópolis. Era de se esperar que no bairro o piano fosse mais respeitado, o Gabriel fosse mais respeitado. Mas não foi. Não respeitaram o piano, o Gabriel, a população, a música! Quebraram o piano como se fosse... Sinceramente não sei o que mereça tanto descaso. E a troco de que?
Infelizmente, o piano se calou. Quem quiser tocar um piano que compre um, certo? Pra que um numa praça pública onde qualquer um possa tocar e se divertir, se sentir bem? Pra que aquele tanto de gente em volta do piano para escutar uma boa música e socializar um pouco com desconhecidos? Pra que piano na praça? Pra ser destruído por gente sem respeito ao próximo? Pra que respeito?
Igor: O objetivo mesmo então era dar essa popularizada no piano?
Gabriel: Um dos objetivos. O primeiro foi manifestar, depois dar um acesso pra quem nunca teve um piano e promover encontros, como chamar a galera pra tocar a noite, tomar um vinho, fazer um luau, essas coisas.

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