14 de outubro de 2010

O amor e a morte

Escrito por Rafael Leite
Bom, vou compartilhar com vocês um texto que fiz pro colégio, tinha que fazer um texto em cima da vida de Carlos Drummond de Andrade, peguei a morte da filha dele e a morte dele e fiz um texto em cima disso. Lembrem-se que é apenas baseado em fatos reais, algumas datas estão de acordo com os fatos históricos, outras eu inseri no meio, mas acho que ficou muito bom, vocês vão gostar!

O amor e a morte

A morte dói muito, mas, às vezes, faz a gente ver quantas e o quanto as pessoas nos amam.

A pessoa que mais amei em minha vida foi minha filha, Maria Julieta. Como dói para mim aquele mês de Agosto do ano de 1987. Não pelo meu falecimento, e sim o de Maria Julieta. Maldito câncer! Sempre atacando e matando até os mais novos.

Naquele dia em que ela se internou, foi um sofrimento enorme para mim. Você não imagina a dor de um pai ao ver sua filha entrando numa ambulância. Nesses 2 meses de internação, fiquei no quarto com ela dia e noite. Só saia quando os médicos pediam para me retirar, e mesmo assim discutia com eles antes de aceitar e me retirar.

Era dia 04 de agosto, véspera de sua morte. Em um último momento de lucidez, pude conversar com ela. Como minha filha estava mal! Falava com dificuldades e ficava sem ar, mas foi uma conversa emocionante. Conversamos sobre poesias; minhas, no caso. Ela perguntou se eu ainda estava escrevendo, e tão bem como sempre. Falei que não conseguia mais fazer, ainda mais com minha fonte de inspiração num quarto de hospital. Completei dizendo que todos os dias estava ao seu lado, lutando junto com ela, e até mais. Ela sorriu, com suas poucas forças, e falou algo de que eu nunca esquecerei: “Você é o melhor pai que alguém poderia ser. Queria poder compartilhar você com o mundo”. Chorei, confesso. Ela voltou a dormir, em seu sono profundo. Dormi também.

Dia seguinte, o dia mais triste de minha longa vida. Se eu pudesse, ia no lugar dela. Logo pela manhã, notei algo errado. Fui acordado por uma movimentação estranha no quarto. Fui orientado pelos médicos a me retirar do quarto. Logo após, a levaram para a UTI.

Hora da morte: 09h37min. Assim terminou a vida da pessoa que mais amei neste mundo. Vítima de um câncer. Eu, velho, fiquei. Ela, nova, se foi. Meu coração não aguentou. Tive que ocupar a mesma maca que ela, quando recebi a triste notícia meu coração quase não aguentou. Se não fosse a equipe do hospital, teria ido as 09h39min. Por que eles tinham que me salvar? Eu era mais feliz ao lado de minha filha, sem ela não sou ninguém. Apenas mais um vegetal em uma cama de hospital.

Acordei apenas dia 07 de agosto, no meio de aparelhos e tubos, e um crucifixo. Achei uma falta de respeito aquele intruso em meu leito de morte. Queria minha filha ao meu lado, e não um crucifixo. MINHA FILHA, MARIA JULIETA!

Foram os 12 dias mais longos de minha triste e longa vida. Passei todos eles na UTI. Entubado, respirando por aparelhos inúteis, esperando a minha morte. Tomei tanto choque que dava para abastecer uma casa inteira por 1 ano. Não sei por que raios eles tentavam a todo custo me manter vivo. Sem minha filha, minha querida e amada filha, eu era morto. Não tinha mais motivos para viver. Eu não queria mais viver.

Não tinha família, não tinha amigos, não tinha mais nada. Não escrevia nada há tempos, só pensava em como deixei um maldito câncer matar minha filha.

Simplesmente não queria mais viver, e nem precisei lutar muito para isso. Meu coração parou. Os médicos o faziam voltar, ele parava novamente. Voltava por causa dos médicos.

Dia 17 de agosto, daquele terrível ano de 1987, meu coração parou e resistiu à vida. Finalmente, depois de 12 dias de luta, eu morri. Foi o dia mais feliz da minha vida (ou morte). Estava livre!

Fui enterrado no São João Batista, ao lado do túmulo de minha querida filha. Finalmente pude reconhecer o quanto era querido por esta sociedade. O Brasil ficou de luto. Boa parte de meus amigos de Belo Horizonte (os que ainda estavam vivos) vieram me dar o último adeus. Rio de Janeiro inteira se mobilizou para aquela zona da cidade.

Muitas lágrimas. Muitas flores. Muitos adeus.

Senti-me alguém naquele dia. Consegui ver o quanto as pessoas gostavam de minhas poesias. E o mais importante: o quanto as pessoas me amavam.

Infelizmente, tive que desapontá-las, afinal, eu não as amo. A única pessoa que eu amava era minha falecida filha. Sem ela, nada me importava.

Acho que daí se explica de que eu morri. Morri de amor. Não é no coração que ficam os sentimentos?

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